o amor como espelho

Essa semana li uma frase que ecoa em mim desde então: “É através dos relacionamentos que verdadeiramente nos conhecemos, pois eles são como espelhos.” Ela não apenas fez sentido ela me atravessou. Porque se existe um lugar onde não conseguimos sustentar máscaras por muito tempo, é dentro de uma relação. No amor, os filtros escorrem. O que somos aparece nas entrelinhas das discussões, na forma como reagimos ao silêncio, na maneira como pedimos colo ou levantamos muros. O outro se torna superfície refletora das nossas luzes e, principalmente, das nossas sombras. Durante muito tempo me culpei por ter passado por tantos relacionamentos. Eu me perguntava o que havia de errado comigo. Por que não dava certo? Por que eu sempre precisava recomeçar? Carreguei a sensação de fracasso como se amar fosse uma prova que eu insistia em não passar. Mas hoje compreendo com mais delicadeza: cada história foi um espelho necessário. Em cada amor que terminou, encontrei pedaços meus que ainda precisavam de cuidado. Descobri meus limites e também a falta deles. Percebi o que eu aceitava por medo da solidão, o que eu confundia com intensidade, o que eu chamava de amor quando, na verdade, era carência pedindo para ser vista. Relacionar-se é um ato profundamente filosófico, ainda que pareça apenas emocional. É no encontro com o outro que percebemos que não somos seres acabados. Somos processo. Somos construção. Somos tentativa. O amor nos desconstrói para nos reconstruir mais conscientes. Ele nos obriga a olhar para dentro quando tudo o que queremos é olhar para o outro. E, ironicamente, quanto mais nos conhecemos, mais capazes nos tornamos de amar de forma inteira sem mendigar afeto, sem aceitar migalhas, sem nos abandonar para caber em alguém. Hoje encontrei alguém bondoso, paciente como eu sempre quis. Mas talvez a maior mudança não esteja apenas em quem está ao meu lado. Está em quem eu me tornei. Eu já não amo por falta. Amo por escolha. Não fico por medo. Fico por paz. E talvez seja essa a conclusão mais bonita: o amor não vem para nos completar, como tantas vezes ouvimos. Ele vem para nos revelar. Ele nos mostra onde ainda somos frágeis, onde ainda precisamos crescer, e, quando estamos prontos, nos ensina que amar não é perder-se no outro é encontrar-se com mais profundidade. No fim, os relacionamentos são espelhos, sim. Mas não para que vejamos apenas o outro refletido neles. São espelhos para que, finalmente, possamos sustentar o olhar diante de nós mesmos. E quando conseguimos fazer isso quando não desviamos mais os olhos do que somos o amor deixa de ser uma busca desesperada por alguém que nos salve. Ele se torna um encontro sereno entre duas pessoas que já aprenderam a caminhar sozinhas. Talvez amar seja, antes de tudo, um exercício de consciência. E talvez só permaneça quem não nos tira de nós mas nos devolve, inteiros, para nós mesmos.

Bianca Torriani

12/30/20251 min ler