a coragem em sustentar seu próprio desejo
Outro dia, enquanto atravessava a cidade com um café na mão e a cabeça cheia de perguntas, me peguei pensando quando foi que começamos a viver mais para atender expectativas do que para escutar nossos próprios desejos? Aprendemos cedo que decepcionar é quase um pecado capital. Então dizemos “sim” quando queríamos dizer “não”, seguimos caminhos seguros quando sonhávamos com desvios, e chamamos isso de maturidade. Mas, no fundo, algo começa a incomodar. Uma angústia sem nome, um cansaço que não passa, aquela sensação incômoda de estar vivendo a vida de outra pessoa. Talvez sustentar o próprio desejo seja uma das coisas mais difíceis da vida adulta. Porque exige coragem. Coragem para sair do papel de quem só cumpre expectativas e assumir a responsabilidade pela própria história com todos os riscos que isso implica. E talvez ultrapassar expectativas não tenha nada a ver com fazer mais pelos outros, mas com parar de se limitar ao que projetaram sobre nós. No fim das contas, quando escolhemos viver guiadas pelo desejo e não apenas pelo dever algo muda. A vida respira melhor. Ganha sentido. Ganha liberdade. E fiquei me perguntando, enquanto dava o último gole no café: será que sustentar o próprio desejo não é, no fundo, a forma mais honesta de sustentar a si mesma? Muitas vezes, não vivemos a partir do que realmente desejamos, mas do que os outros esperam de nós. Desde cedo aprendemos a agradar, a cumprir deveres e a evitar decepcionar, e isso acaba abafando nosso próprio desejo. Sustentar nosso anseio é uma das tarefas mais desafiadoras, porque, como dizia Freud, "o Eu não é senhor em sua própria casa". As expectativas dos outros fazem tanto ruído que, muitas vezes, abafam aquilo que realmente queremos. Aprendemos a viver para não decepcionar, mas a psicanálise nos mostra que seguir apenas o desejo alheio é se exilar de si mesma. O desejo ignorado retorna em forma de angústia, cansaço e sensação de estar vivendo uma vida que não é nossa. Sustenta-lo exige coragem abandonar o papel de quem só cumpre o que esperam e assumir responsabilidade pela própria história. Ultrapassar expectativas, então, não é entregar mais aos outros, mas não se limitar ao que projetam sobre nós. Quando escolhemos guiar a vida pelo desejo e não pelo dever encontramos respiração, sentido e liberdade Abandone-se e tenha coragem. Somos seres desejantes porque estamos em constante falta essa busca incessante por algo que nunca se completa é o que nos define, nos move e dá sentido à nossa existência, não como um problema, mas como nossa condição fundamental de seres humanos.
Bianca Torriani
12/30/20251 min ler